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12/08/2004
A Locke, que afirmava que nada existe feito no nosso espírito, sucedeu Berkeley, que sustentava que só o espírito tem existência real. Quer dizer: a um materialista extremado sucedeu um idealista desenfreado. Não acreditava na matéria, não cria no exterior. Eis toda a sua filosofia. Porque todos os pensadores, depois de tantos séculos de filosofia, estão de acordo em que não podemos saber se vemos o mundo exterior tal como é. Mas então, se o não conhecemos, por que é que afirmamos que ele existe? Nada sabemos sobre ele.
Nós não conhecemos senão as nossas idéias. Pois bem, digamos então: não há senão idéias. Mas de onde vêm essas idéias? Explicá-las como vindo do mundo exterior, que nós nunca vimos, tal como fez Locke, é explicar o obscuro pelo mais obscuro ainda. Elas são espirituais, vêm-nos sem dúvida dum espírito, de Deus. Ao emitir tais conceitos Berkeley os encarava como importantes e salutares. "Se credes na matéria, podeis não acreditar senão nela, e eis aí nesse caso o materialismo com todas as suas imorais conseqüências; se credes na matéria e em Deus, sois de tal forma embaraçados por esta dualidade, que não sabeis como separar a natureza de Deus e acontece que vereis Deus na matéria, que é o panteísmo." Numa palavra, entre nós e Deus, Berkeley suprimiu a matéria para que nos sentíssemos, por assim dizer, imediatamente em contato com Deus. Apesar de bispo angelicano não se deixou impressionar, como vimos, por Descartes.
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